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Grifes de moda investem em projetos culturais e agitam o Rio

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Tamanho da fonte: A- A+ Por: Maria Laura Machado 05/02/2012

Comprar roupas deixa de ser uma tarefa simples e pode fazer o consumidor ouvir uma banda, participar de concursos de literatura ou de várias outras manifestações culturais

Entrar em uma loja não para comprar roupa, mas para ouvir uma banda tocando gratuitamente; participar de concursos que podem ser o pontapé para uma promissora carreira como escritor; dar espaço para diversas manifestações artísticas que se cruzam com a música. Esses são alguns dos projetos nos quais grifes investem para dizer que moda é, sim, sinônimo de cultura e mobilização.

Em uma tarde ensolarada em Ipanema, zona sul do Rio, um burburinho em frente à Reserva+, na Galeria River, era sinal de que algo diferente rolava por ali. Dentro da loja exclusivamente voltada para eventos culturais promovidos pela marca Reserva, acontecia o show da banda Santafé, mais uma das apresentações programadas para as quartas e domingos no local. Os shows, totalmente gratuitos, são uma das apostas da grife para trazer cultura para o Rio.

“A proposta da loja é trazer eventos para a cidade. O Rio ficou muito perdido em produção cultural, especialmente em relação a São Paulo. A ideia é que seja um espaço cultural e democrático, que estimule a produção, exponha e dê espaço para novas pessoas e qualquer manifestação cultural”, conta Kim Coubert, de 24 anos, gerente do espaço.

Exposições, shows, recitais, sessões de cinema diárias, eventos de vídeogame. São inúmeras ações que ocorrem dentro da loja. Segundo Coubert, a proposta inovadora ainda trava o brasileiro, que demora a curtir eventos desse porte. A maioria dos clientes ainda confunde o espaço com as lojas comuns da marca, perguntando pelas araras de roupa.

A jornalista Flora Cosentino, de 28 anos, acompanhava pela primeira vez um show no local, ao lado de sua mãe, a psicóloga Vera Lucia de Mello, de 52 anos. Ambas estavam empolgadas com a possibilidade de incrementar as tardes de verão.

“Acho que é importante cada vez mais ter espaços culturais dentro de lojas, lounges, em ambientes alternativos. Ir a uma loja e ter um show, ao bar e ver uma exposição. Isso atrai diversos públicos que, talvez, não entrariam no local”, argumenta.

O vocalista da banda Santafé, Márcio Claro, de 46 anos, apoia o empreendedorismo. “É a primeira vez que tocamos em um evento assim. É bem legal tocar e chamar a atenção da galera que está passando. É o caminho, já que a gente não tem apoio do governo. Que as empresas invistam mais nesse sentido”, avalia.

 

Concurso de contos pode render selo

A literatura também é alvo de empreendedorismo. O Cantão conduziu, no final de 2011, o concurso cultural “Eu amo escrever”, no qual pessoas inspiradas mandaram, via internet, um conto seguindo o tema proposto “Viver bem”. Foram 3.146 textos enviados, dos quais 10 foram premiados com a publicação do livro “Eu amo escrever - Cantão - Viver bem”, lançado em novembro pela editora Livros Ilimitados.

O roteirista Diego Rebouças, de 28 anos, soube do concurso através de amigos e inscreveu o conto“Ponto de partida”. O texto, segundo o autor, é uma metáfora sobre nascimento e reflete seu momento de busca e encontro com uma nova profissão. O toque pessoal agradou ao júri, formado pelos escritores João Paulo Cuenca, Gabriel Galera e Luciana Pessanha.

“Confesso que estava tão nervoso no lançamento do livro que não tenho memória desse dia. Escrever é muito importante para mim. Foi mágico. Deveria haver mais concursos, repercute na estima, não existe perdedor nesse tipo de evento”, declara.

“‘Eu amo escrever’ foi o único evento que precisou de uma verba, mas eu preferiria não abrir esse número. Temos a ideia de fazer também em 2012 e estamos discutindo, inclusive, criar um selo do projeto para lançar novos autores”, detalha Rick Yates, de 36 anos, gerente de marketing da grife.

Ao longo de seus 44 anos, a marca já lançou outros projetos na mesma linha de “Eu amo”. Em 2007, a grife fez uma campanha de estímulo à leitura e em 2009 foi a vez do Palco Cantão, que promovia encontros musicais entre artistas na antiga Cinemathèque, em Botafogo. No ano passado, o Cantão firmou parceria com a Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage, no Jardim Botânico, transformando obras de diversos artistas em estampas para camisetas e toda a renda obtida com as vendas é revertida para a escola. O carnaval de 2012 também tem o dedo da grife, que produziu camisetas para os blocos Cordão do Boitatá e Céu na Terra.

 

Lojas se transformam em palco para shows

Outra marca que apoia diversos projetos é a Farm. Ao longo de 2011, a marca apoiou diversos shows do projeto “Queremos”, que mobiliza fãs para trazer artistas para o circuito carioca de música. A grife produziu seu próprio festival, o “Eu quero festival!”, nos dias 7 e 8 de novembro, e levou para o Circo Voador, na Lapa, nomes como Driving Music, Beady Eye (do ex-Oasis Liam Gallengher), Baleia, Toro y Moi, entre outros.

Para 2012, investe na programação da rádio da Babilônia Feira Hype, onde também instalou um palco; em janeiro, as quartas foram preenchidas com shows gratuitos na loja de Ipanema, no “Quartas de verão”. Uma das recentes atrações foi Thais Gulin, de 31 anos, que lançou seu segundo disco, “Ôôôôôôôô”, no início do ano passado. O show feito dentro da loja surpreendeu a artista, dando uma nova perspectiva de interação com o público.

“O pós praia, clima bem relaxado, cerveja - muito diferente dos teatros e de casas de show - redimensiona o olhar. Não sabia qual seria o público da loja e me supreendi com tanta gente ali e o coro às músicas do disco. Outra coisa: luz acesa. Bom isso, dá para ver bem o rosto do pessoal”, revela.

“A gente gosta de trabalhar com bandas novas, com bandas que já se consagraram, mas que tem a ver com o life style da marca. Isso é o que há de valor para as pessoas”, afirma André Carvalhal, diretor de marketing da empresa.

A internet está aí para mobilizar o maior número de pessoas em todo o País. Usando o Facebook como plataforma de lançamento do projeto Movinmusic, Pedro Ruffier, de 24 anos, proprietário da Movin, pretende divulgar as mais variadas manifestações artísticas relacionadas à música, de pintura às próprias bandas.

Lançado em agosto de 2011, o projeto ainda caminha timidamente, mas o idealizador espera que ele se torne uma porta ampla para novos talentos. Antenado com as novas formas de consumo e divulgação de arte, Ruffier testa o interesse do público-alvo.

“A gente faz a divulgação, libera o espaço na loja para tocar, facilitar essa introdução no mercado sem nenhum interesse comercial. A gente quer mesmo divulgar esses novos artistas. As empresas, grandes ou pequenas, hoje estão buscando muito essas associações”, afirma.

 


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