Cultura e LazerNarrativa

Narrativa expositiva conta um pouco da história dos virais

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Tamanho da fonte: A- A+ Por: Ana Paula Soares 04/12/2013

Mostra no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), expõe a tradição da viralização da informação dos primórdios até seu ápice na cultura digital do nosso tempo

O mundo real já é influenciado o tempo todo pelo virtual e é crescente a presença da cultura viral, que, de um a um, dissemina qualquer mensagem para um número antes inimaginável de pessoas em pouquíssimo tempo. Pensando nessa nova forma de comunicação, foi criado um projeto especialmente para debater, apreciar e refletir sobre o assunto. Ele é o Virei Viral, cuja finalidade é contar, através de múltiplas plataformas, sobre o impacto das tecnologias digitais na forma como criamos, consumimos e distribuímos conteúdos.

Na exposição, em cartaz até o dia 06 de janeiro de 2014 no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, o público poderá conferir uma narrativa expositiva que conta um pouco da história dos virais desde os tempos pré-digitais até as novas e futuras tecnologias. Foram usados vídeo instalações, obras digitais e suportes multiplataformas para apresentar um recorte da cultura do compartilhamento de conteúdos, com espaço para crítica, possibilidades, inovações de linguagem e tendências.

A curadoria e direção de arte são da agência M’Baraká Experiencias Relevantes, que assina também algumas instalações. O público ainda vai poder conferir trabalhos de artistas consagrados como o dos brasileiros Lucas Bambozzi e Alexandre Mury, dos fotógrafos norte-americanos Jonathan Harris e Tanja Hollander e do francês Sacha Goldberger.

Segundo a equipe do CCBB, Virei Viral está tendo uma média de 2 mil visitantes por dia, desde que foi inaugurado, em outubro. Estima-se, portanto, que a visitação total será de mais de 100 mil pessoas. A diretora do estúdio M’Baraká e da equipe de curadoria do projeto, Isabel Seixas, conversou com O FLUMINENSE sobre a exposição.

Fale um pouco sobre as plataformas que o “Virei Viral” utiliza.

A M’Baraká vem se especializando no desenvolvimento de exposições que fazem uso de múltiplos recursos para contar uma história. Não queríamos uma exposição 100% digital. Virei Viral mescla a exibição de obras em formatos diversos como fotografia, vídeo instalações, ambientes sensoriais, cenografia. A história é contada de forma tridimensional, com suportes diversos.

Como vocês chegaram ao recorte escolhido para abordar a cultura do compartilhamento de conteúdos?

Nós, curadores da exposição, somos de uma geração intermediária em termos digitais. Somos dos anos 80, nascemos no auge da grande mídia, quando prevalecia um formato de comunicação de “um para muitos’, e transmutamos para essa realidade completamente diferente da cultura de “muitos para muitos”, da facilidade de geração e difusão dos mais diversos conteúdos. Talvez essa vivência de duas realidades completamente diferentes tenha influenciado nossa excitação com o tema. A idéia da exposição surge de uma vontade de refletir sobre essa “cibercultura”, que, longe de ser o cenário onde predominariam robôs e viadutos intergalácticos, como se anunciava nos anos 80, nada mais é que a cultura do século XXI, marcada pela presença do digital em quase todos os nossos gestos. Nada mais é que a revolução dos modos de vida, de noções de tempo, espaço, comunicação e sociabilidade, das possibilidades de pesquisa, de trabalho e de lazer.

Como vocês resumiriam a história dos virais? Em que evoluíram - se é que podemos falar assim?

Entendemos que o viral é muito anterior à era digital e sempre esteve muito presente na nossa via. Ele surge lá atrás com os rituais, os mitos. Na exposição, mostramos o caso de um programa de rádio em que Orson Welles lê trechos do romance A Guerra dos Mundos. A população que ouve o programa acredita de fato naquela narrativa de marcianos invadindo a Terra e a coisa vai se espalhando de tal forma que o pânico toma conta de algumas cidades americanas durante algum tempo. No nosso cotidiano, além dos vídeos e conteúdos da internet que repassamos aos montes, há viral em toda parte, nas fofocas, nas cartas-correntes, nas lendas urbanas, na moda. Compartilhamos o tempo todo conteúdos, comportamentos, ideias. O viral, como aquilo que se espalha, está em toda parte. O digital é apenas uma linguagem que potencializa isso.

A necessidade de compartilhar abordada na exposição faz algum paralelo com o desejo do homem pela fama? Se não, qual sua opinião?

A fama não é um tema abordado com destaque na exposição, embora na mostra, a Marina Person tenha sido convidada para montar uma LivePlylist (apresentação baseada em vídeos) sobre 15 segundos de fama. Acreditamos que há casos em que se vê a web como uma plataforma multiplicadora que facilita o alcance da fama. Mas essa não é uma característica da cultura digital, é muito mais uma característica social que vem da lógica da grande mídia, da fama instantânea, e que se espalha pelos meios digitais.

Esse novo ritmo em que vivemos, ditado pela nova era digital, transformou a noção de “tempo” para cada pessoa. Como a mostra analisa isso?

Pessoalmente sempre refleti sobre como as pessoas lidam com o tempo, uma coisa tão abstrata. Penso que a noção de tempo é sempre relativa, baseada nas formas sociais de “contar o tempo”, com o que se pode comparar, relativizando nossa percepção. Nesse sentido, se pensarmos que, por minuto, é feito o upload de mais de 48 horas de vídeos no You Tube, mais de 200 milhões de e-mails são enviados, 500 novos sites são criados, o tempo, claro, tem sido aparentemente mais curto ou usado de forma mais intensa. A mostra aborda a cultura de compartilhamento em geral. O tempo - e o espaço - estão naturalmente refletidos. A forma como um conteúdo viraliza e cai no esquecimento é, muitas vezes, assustadoramente rápida. As conexões entre pessoas de diferentes locais, idades, perfis é também um reflexo dessa nova percepção de tempo-espaço. 

Como você definiria o lado cômico da mostra?

O humor já está presente no início da mostra, que ironiza um pouco a noção de viral como algo dos tempos digitais. Ao longo da exposição, o humor, como gênero que faz muito sucesso na internet, está presente em muitos dos vídeos virais apresentados. Está também na obra de artistas. A obra do francês Sacha, a série Mamika, tem inegavelmente uma veia irônica. É, ao mesmo tempo, hilária e comovente, uma vez que, para tirar a avó de 91 anos da depressão, o artista a retrata de forma trash e rebelde. As releituras de Alexandre Mury em formato de autorretratos também são recheadas de humor e, em alguns casos, interpretações irônicas. O humor está presente na exposição, embora não seja o tom norteador do Virei Viral.

Uma fotógrafa propôs uma reflexão sobre a amizade, enquanto outro artista preferiu fazê-la sobre a felicidade. Talvez esse novo tempo tenha trazido mais rapidez e menos reflexão. A exposição veio para trazer essa pausa?

Não sei se concordo. É tudo tão recente que é difícil. É difícil analisar o próprio tempo que vivemos. Uma analise superficial pode sugerir que estamos menos reflexivos pois fazemos muitas coisas ao mesmo tempo, há excessos por todas os cantos. Mas há uma outra possibilidade: a de estarmos conseguindo multiplicar nossa atenção, nossos interesses e, assim, estar, por outro lado reconstruindo nosso próprio sistema de inteligência. Pierre Levy, filósofo contemporâneo que é referência para o grupo de curadores da exposição, fala muito em “inteligência coletiva”. De certa forma, como estamos tendo mais acesso, mais referências, mais compartilhamentos, mais informações, mais conteúdos, forma-se um universo mais amplo de percepções, memórias, conhecimentos. 


O FLUMINENSE


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